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21 de Maio de 2020

Desenhos de menino autista viram canecas que, com a venda, ajudam família a enfrentar a crise

Desde muito cedo, os lápis de cor, canetinhas e gizes de cera são os melhores amigos do pequeno Daniel Munhoz Dias, seis anos, morador de Esteio. Apaixonado por desenhar, o menino — diagnosticado aos dois anos com Transtorno do Espectro Autista — não é muito falante, mas descobriu nos traços e nas cores vibrantes a sua forma preferida de expressar o mundo. Há menos de um ano, suas ilustrações coloridas saíram do papel e foram transformadas em canecas que, agora, estão ajudando a família a enfrentar as dificuldades financeiras causadas pela pandemia. 

Por conta do isolamento, o pai do menino, o músico Caio Dias, 37 anos, precisou parar de trabalhar. Com isso, a renda da família — formada também pela dona de casa Oneida Teixeira Munhoz, 36 anos, mãe do pequeno artista — reduziu-se a um salário mínimo (R$ 1.045), fruto do benefício assistencial recebido por Daniel. Mas, graças à venda das canecas estampadas com os desenhos do menino, os pais têm conseguido dar conta de despesas como aluguel e fraldas utilizadas pelo filho, passando por esse período de uma forma melhor.

Orgulho

Com valores que variam de R$ 20 a R$ 30, os itens são vendidos por meio de uma página no Facebook, a “Arte do Dani”. Além de fazer sucesso entre os clientes e ajudar no orçamento de casa, as xícaras personalizadas enchem de orgulho o casal e o próprio Daniel, que já consegue identificar seus desenhos estampados na louça.

— Sou um pai que também lida com arte, então, fico muito orgulhoso. Quando eu era pequeno, também gostava de desenhar, mas não desenho nem metade do que ele desenha — confessa Caio, e Oneida completa:

— Me orgulho em ver que ele tem um dom que nunca ninguém vai tirar dele. É muito esperto e sabe tudo o que está fazendo. Agora, já entende que os desenhos vão para as canecas e fica feliz.

Hiperfoco em desenhar e muito talento

— Se deixar, ele passa as 24 horas do dia desenhando: no caderno, no tablet, com giz em quadro negro, com palito na terra, em qualquer lugar. Por mais que um dia eu chegue em uma escola e me digam que ele não fez nada, que ficou só desenhando, eu vou saber que esse nada para ele é tudo. Sei que nem todo mundo vai saber valorizar isso, mas a gente valoriza muito — comenta a mãe, Oneida, explicando que o desenho é o hiperfoco do filho.

Característica comum em pessoas com Transtorno do Espectro Autista, o hiperfoco é uma forma intensa de concentração em uma mesma tarefa ou temática. No caso de Daniel, ele se manifesta através do gosto por desenhar. Com a memória fotográfica aguçada, tudo vira arte nas mãos do menino, que se inspira naquilo que vê em seu cotidiano, como personagens de programas de televisão, comidas e pessoas.

 

Sem economizar no uso das cores, e misturando dinossauros coloridos com hambúrgueres, paisagens e objetos, cada desenho é único e expressa um pouco do mundo experienciado pelo pequeno — um mundo só dele.  — O Daniel sempre mostrou facilidade para desenhar as coisas de que gostava e, quanto mais o tempo passa, mais complexos estão ficando os desenhos. Ele tem um estilo totalmente dele, um traço bem maluco, e uma noção absurda para combinar cores — conta Caio, relembrando o dia em que o filho fez um desenho (foto) e pediu para que ele colorisse, indicando qual cor deveria compor cada parte da ilustração. 

Presente para os avós virou negócio

A iniciativa de transformar os desenhos de Daniel em canecas partiu do pai, em meados do ano passado. A ideia inicial, porém, era despretensiosa: os itens seriam um presente para os avós do menino, em comemoração ao Dia dos Avós. Com as canecas prontas, Caio compartilhou fotos em um grupo no Facebook que reúne pais de crianças autistas. O objetivo era apenas mostrar o presente dos vôs, mas a arte do Dani acabou viralizando.

— O povo enlouqueceu com as canecas dele. Todos queriam saber como fazer para comprar — relembra.

A partir da repercussão positiva, a família decidiu investir na confecção dos itens. Com um dinheiro guardado, compraram o equipamento e passaram a produzir, em casa, as xícaras personalizadas. Contudo, por conta do trabalho, não havia tempo aos pais para dedicarem-se completamente ao negócio.

Foi, justamente, no contexto da pandemia — com as atividades profissionais paralisadas  — que a Arte do Dani deslanchou. Agora, além das canecas, também começaram a ser produzidos itens variados como chinelos, chaveiros, quebra-cabeças e relógios.

— Na primeira caneca que fizemos, quando ele viu que era o desenho dele, abriu um sorriso de orelha a orelha. Desde então, ele começou a desenhar cada vez mais. Quando termina um desenho, me chama para mostrar e diz “olha papai, caneca” — conta Caio, ponderando que o objetivo é continuar deixando o filho confortável para fazer o que sentir vontade: 

— Para o futuro, não queremos criar muita expectativa ou forçar ele a fazer algo que, quando crescer, talvez ele não goste mais. Mas, na minha opinião, se ele resolver estudar alguma coisa quando for grande, vai ser relacionado a isso. 

Família ainda precisa lutar por inclusão

Desde a descoberta do autismo de Daniel, as vidas de Oneida e Caio foram transformadas. A mudança, porém, pouco teve a ver com a descoberta da condição do filho — que continuou sendo o mesmo menino tranquilo e afetuoso de sempre. O diagnóstico trouxe para Daniel, além da descoberta de seu quadro clínico, o rótulo de criança autista — e a família precisou aprender a lidar, também, com o preconceito e com a ausência de inclusão.

— Estou sempre nessa batalha para que entendam que ele é um ser humano e uma criança normal. Acho que quanto mais a gente divulga e mostra o autismo, as pessoas vão quebrando essa casca — afirma Oneida, que criou uma página no Facebook, chamada “Daniel aqui mora um autista”, para compartilhar o dia a dia do filho, hoje matriculado no 1º ano de uma escola pública de educação regular (aquela que não é exclusiva para crianças especiais).

Segundo a mãe, foi também em ambientes escolares que as primeiras dificuldades surgiram. Seja por meio do trato com outras crianças ou na relação com os próprios professores — muitas vezes despreparados para atenderem alunos com necessidades diferenciadas, como Daniel —, Oneida relata ter percebido, na escola, que a luta por inclusão está longe de ter um fim. 

— O autismo não tem cara, mas a gente procura sempre mostrar que ele é autista e que ele não morde, que o autismo não pega e que as pessoas podem ser amigas dele. Tenho certeza que ele vai muito longe, mas precisamos que as leis saiam do papel — relata a mãe, que bordou no uniforme escolar do filho a frase “Sou autista, tenha paciência comigo”, a fim de visibilizar a condição de Daniel.

POR GAÚCHA ZH

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