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14 de janeiro de 2020

Neil Peart, baterista do Rush, em 2010 esteve em Itapiranga SC.

Neil Peart: a vez em que o baterista do Rush se perdeu no interior de Santa Catarina

Falecido na última semana, o músico costumava viajar de moto durante as turnês da bandas

Peart adorava motocicletas, e, sempre que podia, viajava de moto para os shows do Rush

(Foto: YouTube/Divulgação)

Na última semana, o mundo da música se despediu de Neil Peart, do Rush, considerado um dos maiores e mais importantes bateristas da história do rock. Peart morreu aos 67 anos, em decorrência de um câncer no cérebro, diagnosticado há três anos. Parte do Rush desde 1974, o músico se apresentou com a banda pela última vez em 2015, na despedida do grupo dos palcos.

Mas os fãs mais dedicados sabem que a bateria não era a única paixão do artista: Peart adorava motocicletas, e, sempre que podia, viajava de moto para os shows do Rush, o que rendia incríveis relatos da estrada em seu blog pessoal. E foi o lado motociclista de Neil Peart que rendeu uma verdadeira pérola para os fãs brasileiros: a vez em que o baterista desbravou as estradas do país, partindo de São Paulo em direção a Buenos Aires – e se perdeu durante a passagem por Santa Catarina. A aventura foi relatada em 2010 no blog do músico, com o título “The Power of Magical Thinking”, ou “o poder do pensamento mágico.”

Na introdução do texto, Peart explica que, embora não acreditasse em “técnicas de visualização”, ele acreditava em “sonhar, ousar e ter esperança”, e foi isso que o fez acreditar que podia fazer de moto uma turnê que passava por Brasil, Argentina e Chile. O artista foi acompanhado pelo amigo Brutus, companheiro de estrada, e responsável pelo planejamento e logística da viagem.

Neil Peart, baterista do Rush, morre aos 67 anos
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Peart contou que estava um pouco apreensivo, e sabia que precisaria de um pouco de sorte para que nada desse errado: além de ser sua primeira vez viajando de moto pela América do Sul, também era a primeira vez em que o músico viajava entre shows de uma turnê com o Rush – ou seja, não podia haver atrasos. “Conforme a viagem se aproximava, eu estava cada vez mais nervoso, definindo meus sentimentos a respeito como ‘antecipação e apreensão em medidas iguais’ – esperança e medo, em outras palavras. Depois do primeiro show, em São Paulo, quando Brutus e eu começamos a pilotar, eu sentia um nó no meu estômago. Muitas vezes eu pensei: ‘Isto foi uma péssima ideia’.”

A dupla de amigos já havia viajado muitas vezes, por regiões tão diferentes quanto o Canadá, o México e o norte do continente africano, e, segundo o relato de Peart, “em cada uma dessas jornadas, algo inesperado aconteceu e nos obrigou a mudar nossos planos e nos atrasou um ou dois dias: tempo ruim, um acidente, um problema mecânico. Mas nós não tínhamos flexibilidade para nada disso desta vez.”

Atravessando São Paulo e Rio de Janeiro, Peart começa a comentar sobre as coisas que mais chamaram sua atenção nas principais estradas brasileiras – como a grande quantidade de caminhões (“havia dez caminhões para cada carro, mas os motoristas pareciam bons”, escreveu) e de pedágios. Ele parece ter gostado mais das estradas secundárias, mais “vívidas e pitorescas”, nas suas palavras; e descreveu Petrópolis (RJ) como uma “uma linda cidade colonial aninhada na montanhosa floresta tropical do Rio de Janeiro.”

Em determinado ponto, os viajantes foram parar em uma estrada de terra ladeando o rio

(Foto: Blog pessoal de Neil Peart)

Foi no segundo dia de viagem, depois da passagem por Curitiba (PR), e de mais de 500 quilômetros de estrada, que o GPS de Peart e Brutus começou a apresentar mau funcionamento – mas os dois imaginaram que a área pudessem ser simplesmente mal mapeada, e não que o problema fosse do GPS em si. “De qualquer forma, nós sabíamos que precisávamos ir na direção sudoeste, em direção ao Rio Uruguai, onde atravessaríamos uma ponte e seguiríamos em direção à fronteira com a Argentina”, escreveu o baterista. “Usamos a função ‘bússola’ do GPS para garantir que continuávamos seguindo na direção certa, e achamos que nada poderia dar muito errado.”

Em determinado ponto, os viajantes foram parar em uma estrada de terra ladeando o rio, “sem nenhuma ponte à vista”, conforme narra Peart, e também “sem nenhuma cama à vista” – o que os preocupava, uma que vez que já ia entardecendo. “Nós tínhamos mapas de papel conosco, mas naquele ponto não havia cidades, não havia placas, não havia pessoas a quem perguntar nada. A melhor ideia com a qual conseguimos concordar foi seguir na direção norte, tentando reencontrar o asfalto.” Neste ponto, o GPS estava tão perdido que por vezes mostrava as motocicletas no meio do Rio Uruguai.

Foi quando chegaram a Itapiranga (SC) que Peart e Brutus puderam conferir em seus mapas onde estavam, usando a cidade como referência – e perceberam que haviam perdido a curva que os levaria à ponte para atravessar o Rio Uruguai muitas horas antes. Os dois resolveram dormir na cidade, onde passaram a noite no Hotel Mauá – elogiado pelo músico, que o comparou às hospedagens encontradas na parte rural da Áustria. Já os restaurantes foram comparados àqueles das pequenas cidades italianas – e Peart pediu a um garçom que anotasse em um caderno os nomes das bandas e artistas que estavam tocando em uma rádio local.

A impressão de Peart do interior de Santa Catarina foi bastante positiva

(Foto: Blog pessoal de Neil Peart)

Tentando se virar no português para falar com os moradores da cidade, Peart e Brutus descobriram que podiam pegar uma balsa para atravessar o rio na própria Itapiranga – e assim fizeram, na manhã do dia seguinte. Os dois ainda enfrentaram algumas dificuldades para chegar a São Borja, onde um agente ajudaria o baterista do Rush e seu companheiro de viagem com as formalidades na entrada da Argentina: “Não havia placas ou sinais na estrada”, escreveu Peart. “Como eu já comentei quando passei pela África e pelo México, existem lugares assim, em que, mesmo se estiver na estrada certa, você não tem como saber.” Eventualmente, e felizmente, Peart e Brutus acabaram conseguindo chegar a tempo. Os viajantes ainda encararam mais um bom trecho de estrada na Argentina, com o baterista comentando que a paisagem dos pampas o fazia pensar no estado norte-americano do Texas.

A impressão de Peart do interior de Santa Catarina foi bastante positiva: “Eu vi lugares subdesenvolvidos no Brasil, e depois na Argentina, também, mas eu jamais diria que esses países são subdesenvolvidos”, ele relatou em seu post. “As pequenas cidades são muito receptivas. Na América Latina, as únicas cidades que parecem se encaixar com o que eu imagino quando penso em uma definição de ‘Terceiro Mundo’ são as maiores: São Paulo, Rio, Cidade do México. E isso simplesmente porque elas são esses grandes ímãs que atraem tanta gente jovem.”

Ele prossegue: “Em megalópoles confusas, que recebem milhares de novos moradores todos os dias, vai haver mau cheiro, vai haver mau comportamento – crime, por exemplo. As cidades falham em fornecer aos moradores tudo de que eles precisam; e eles se sentem alienados do senso de comunidade, de ter um lar. É a receita para um desastre. Uma cidade pequena como Itapiranga não aparece nos guias turísticos. E é uma cidade limpa, bonita, amigável, com bons lugares para dormir e se alimentar. Parece um milagre que nós tenhamos encontrado Itapiranga depois daquele dia cansativo, quando já estava escurecendo. Foi como mágica. Pensamento mágico.”

Via UOL

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